por Natalia Sulman
Na “Teoria do Medalhão”, Machado de Assis ironize a ânsia brasileira de parecer, em vez de ser. O brasileiro deseja ser aclamado por todos, ter emprego estável, família respeitável e boa reputação, puxar o saco dos superiores, só para que portas se abram e ele pareça um grande homem.
Aqui a estabilidade profissional é idolatrada. O ápice da moralidade brasileira é ter um emprego seguro e lucrativo. Temos até a nossa versão de teologia da prosperidade. Política ou religiosamente, todos os meios são usados para a ascensão e a bajulação.
Eh o que Machado expressa na busca de ser um Medalhão, ou seja, alguém que conseguiu conquistar riqueza e prestigio. Inclusive, na história, o pai do jovem Janjão ensina o seu filho a pautar a própria vida nessa busca superficial.
O personagem ilustra que, no Brasil, sabedoria é confundida com esperteza, e gentileza com cinismo. Ou seja, você não eh sábio por conhecer a metafisica do Ser, os princípios da logica, as dimensões psicológicas do homem, mas ao desenvolver astucia suficiente para conquistar espaços públicos notáveis. Também não é gentil por se expressar verdadeiramente e acolher as almas humanas, mas ao ser capaz de bajular o outro e nunca dizer verdades inconvenientes.
Na história, o pai de Janjão ascendeu assim, pela enganação e pilantragem, e incentivou a nova geração a fazer o mesmo. Com isso, Machado esta mostrando que este eh um desvio moral passado de pai para filho, ou seja, não é um vicio particular, mas a regra das relações brasileiras.
Tanjão eh aconselhado, por exemplo, a não desenvolver idéias próprias, e a dominar a retorica para conquistar fascínio alheio. O conhecimento eh apresentado como forma de parecer inteligente falando o que todos querem ouvir. O saber em si não gera esse fascínio. Afinal, de que adianta ser inteligente se ninguém gostar de estar perto das suas verdades inconvenientes?
Dai vem a aversão brasileira a solidão e meditação. As pessoas não desenvolvem a introspecção porque não querem se distanciar de paradigmas sociais. Até porque ser um medalhão é compartilhar o melhor da expectativa alheia ao romper com a própria consciência.
Muitos brasileiros, por isso, não estão sendo eles mesmos nas mais diversas áreas da vida: emocional, intelectual e profissional. Escolhem a profissão que lhes de o credito, procuram ter os mesmos sentimentos e as mesmas opiniões da massa, para que sejam aceitos. Mas isso é só ilusão: não vale parecer, é preciso ser.
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